Gestão de time

Currículo bom não prevê vendedor bom: o que eu olho antes de contratar

Toda vez que um cliente me liga dizendo "preciso contratar um vendedor", a primeira pergunta que eu faço não é "que perfil você quer" — é "o que essa pessoa vai precisar fazer nos primeiros 30 dias". Porque na prática, currículo bonito, discurso afiado na entrevista e experiência em empresa grande dizem muito pouco sobre se aquela pessoa vai vender o seu produto, do seu jeito, pro seu cliente. Eu já vi contratação errada custar seis meses de salário, mais o tempo de quem treinou a pessoa, mais as oportunidades que morreram na mesa enquanto o "vendedor novo" ainda estava se encontrando.

A primeira coisa que eu aprendi, depois de sentar em dezenas de processos de contratação com clientes, é que entrevista de vendas devia ser simulação, não bate-papo. Eu peço pra simular uma ligação de prospecção fria, ou pra apresentar uma proposta pra mim como se eu fosse o cliente, ali na hora, sem preparo. É brutal — e é exatamente por isso que funciona. Quem vende bem de verdade não trava quando muda o roteiro. Quem só decorou respostas de entrevista trava, gagueja, ou desanda pra um discurso genérico. Isso eu não descubro perguntando "me conte sobre uma venda que você fechou".

A segunda coisa é que histórico de resultado importa muito mais que cargo ou empresa no currículo. Eu já vi candidato com título de "gerente de contas" numa empresa grande que nunca bateu meta sozinho — o resultado sempre veio de um time inteiro, de um produto que já vendia por conta própria, ou de uma carteira que ele herdou pronta. E já vi o oposto: vendedor sem nenhum cargo chique que bateu 130% de meta três trimestres seguidos numa empresa pequena, sem estrutura, sem lead qualificado caindo do céu. Pergunto sempre: "de onde veio esse lead, quem preparou essa proposta, quem negociou o desconto". Se a resposta for sempre "o time" ou "meu gestor", esse não é o resultado da pessoa.

A terceira, e essa eu só entendi depois de errar, é que o ciclo de venda do seu negócio precisa combinar com o histórico do candidato — não só o setor. Vendedor que só vendeu produto transacional, de ciclo curto e decisão rápida, sofre demais numa venda consultiva de sessenta ou noventa dias, com múltiplos decisores. E o inverso também é verdade: quem é bom em venda longa e educada às vezes trava numa operação de volume, onde o negócio é ligar rápido e fechar rápido. Eu já coloquei um vendedor excelente numa cadeira errada pra ele, e o problema não era competência — era desenho de vaga.

E a quarta coisa, que resolve boa parte do resto: teste antes de contratar em definitivo. Um período de experiência com meta clara, acompanhamento semanal e critério objetivo de continuidade vale mais do que qualquer dinâmica de grupo ou teste de perfil comportamental. Eu já vi candidato brilhante na entrevista que não sobreviveu às primeiras três semanas de rotina real, e candidato apagado no papel que virou o melhor vendedor do time depois de um mês de prática. A entrevista prevê discurso. A rotina prevê resultado.

No fim das contas, contratar vendedor certo não é sobre achar a pessoa "perfeita" no papel — é sobre reduzir a distância entre o que você vê na entrevista e o que a pessoa vai realmente fazer na cadeira, todo dia, com o seu produto e o seu cliente. Currículo ajuda a abrir a porta, mas quem decide se a contratação vale o salário é a simulação, o histórico de resultado real, o encaixe com o ciclo de venda e um período de teste com critério. Eu prefiro perder um pouco de tempo nesse processo do que perder seis meses e uma cota inteira com a contratação errada.

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