Gestão de time

Quanto tempo leva pra um vendedor novo performar sozinho (e quando isso vira alerta)

Toda vez que entro numa empresa e vejo um vendedor recém-contratado sendo cobrado por meta no primeiro mês, eu já sei o final dessa história. O dono contratou achando que ia "plugar" alguém no time e ver resultado em trinta dias, o vendedor não bate nada, todo mundo se frustra, e em três meses ele já está fora — pra dar lugar a outro que vai repetir o mesmo ciclo. O problema não é o vendedor. É a régua que a empresa usa pra medir se ele está indo bem.

A conta que eu uso com os clientes é simples: rampagem completa leva de um a três ciclos de venda inteiros, não um número fixo de semanas. Se o seu ciclo médio é de 20 dias, um vendedor novo pode estar performando de verdade em dois ou três meses. Se o seu ciclo é de 90 dias, como acontece em boa parte dos negócios B2B mais complexos que eu atendo, é normal — normal mesmo — que ele não feche nada relevante antes do quarto ou quinto mês. Isso não é desculpa, é matemática: ele precisa passar pelo menos uma vez inteira pelo funil pra aprender onde trava, onde o cliente hesita, e como ajustar o discurso.

O que eu cobro nos primeiros 30, 60 e 90 dias não é resultado de venda fechada, é atividade e pipeline construído. Nos primeiros 30 dias, o vendedor tem que dominar o discurso, saber responder as objeções mais comuns sem travar e já estar rodando ligações ou reuniões sozinho, mesmo que mal. Nos 60 dias, quero ver pipeline formado — oportunidades reais em estágio avançado, não só contatos frios acumulados. Só nos 90 dias eu começo a olhar taxa de conversão com seriedade. Empresa que cobra conversão no primeiro mês está julgando o vendedor por um número que ele fisicamente não teve tempo de gerar.

Isso não significa dar cheque em branco. Teve um cliente meu, uma distribuidora, que contratou um vendedor e no segundo mês eu falei pra segurar a ansiedade — ainda estava dentro da curva normal. Mas no terceiro mês, quando fomos olhar a atividade dele, o pipeline continuava vazio: poucas ligações, quase nenhuma reunião marcada, discurso decorado mas nunca testado de verdade com cliente. Aí sim é alerta, porque o problema não era o ciclo de venda, era falta de esforço ou de capacidade de execução. A diferença entre curva de aprendizado normal e vendedor que não vai performar está na atividade, não na venda fechada: quem está no caminho certo gera volume e pipeline mesmo sem fechar; quem não vai dar certo simplesmente não produz.

O papel do gestor nesse período é acompanhar de perto sem microgerenciar — ouvir ligações, dar feedback depois de cada reunião perdida, sentar junto na primeira negociação difícil. Eu vejo muito dono de empresa contratar o vendedor e sumir, só aparecendo no fim do mês pra cobrar número. Rampagem não se resolve com cobrança, se resolve com repetição acompanhada: o vendedor precisa errar na frente de alguém que corrige, não sozinho, tentando adivinhar o que está errado.

No fim das contas, o erro mais caro que eu vejo empresa cometer não é contratar o vendedor errado — é demitir o vendedor certo cedo demais, porque a régua de cobrança estava fora da realidade do ciclo de venda. Antes de decidir se alguém não serve pro time, olhe se ele teve tempo real de passar pelo processo inteiro pelo menos uma vez, com acompanhamento de verdade. Na maioria dos casos que eu revejo depois, o problema nunca foi o vendedor — foi a pressa de quem contratou.

Seu time comercial troca de vendedor antes de dar tempo de performar?

Falar com Guilherme →